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Tecnologia x Esporte: qual a fronteira entre benefícios e dependência?

Como Educadora Física formada a 20 anos tive oportunidade de estudar e vivenciar parâmetros importantes que hoje ficam em segundo plano, como a importância da frequência cardíaca e percepção de esforço.
Me assusta ouvir de atletas e até treinadores coisas como : “frequência cardíaca é bobagem, o que importa é o pace “ ou, pior ainda, “ se não subir o treino no relógio eu nem faço”. Oi?????????

Muitos estudos mostram que as escalas de percepção de esforço bem aplicadas apresentam resultados muito próximos do esforço real. Conhecer nosso corpo, suas sensações e o que significa estar pouco ou muito ofegante, são parâmetros atemporais e não ultrapassados. É comprovado que nossa mente entende três intensidades: leve/ moderado/ forte. Os recursos tecnológicos devem ser materiais de apoio que auxiliam a prescrição do treino e não a única diretriz.
Se eu fechar os olhos e “ouvir “ meu corpo, sei exatamente se minha meu coração está a 150bpm ou a 170 bpm, sem precisar ficar o tempo todo vidrada no relógio. Sei quanto tempo consigo sustentar aquele esforço sem meu relógio precisar apitar. Claro que isso demanda tempo e auto- conhecimento porém é possível e importante.

Já parou para pensar que numa prova não tem Zwift? Que o relógio pode não funcionar ( já aconteceu comigo) , a potência não marcar, o GPS ficar maluco??? O que você faria? Abandonaria a missão e diria “ não quero mais brincar” ?
Infelizmente estamos num momento onde a tecnologia agrega muito na evolução do esporte, porém o que vejo são pessoas dependentes desses recursos, que não sabem (e nem querem) conhecer seu próprio esforço , acomodam- se tanto que se tiverem que dar um lap manualmente , xingam o treinador por não ter o treino no ” builder”.

Outro dia perguntei para um aluno : “Em que fequência cardíaca mais ou menos você fica nos treinos de tolerância a acidose ?” ( um tipo de sessão que repetimos semanalmente). Resposta : “ Não faço idéia “ . De novo : OI???
Num dos meus estágios com Brett Sutton, maior treinador de Triatlhon de todos os tempos , entendi algo sábio. Ele é contra as tecnologias porque o atleta amador já lida o dia todo com números, gráficos, estimativas  etc no trabalho. Chega no treino, que deveria ser seu momento de relaxar , ele continua “ sob pressão” e ao invés de curtir o “ flow” do momento, fica aficionado em mais e mais números. Ou seja , aquilo vira mais um ponto de tensão diária chegando ao ponto de deixar de ser prazeiroso- ele abandona o esporte.

Claro que a tecnologia deve ser nossa aliada, ainda mais quando objetivamos melhorar a performance, um podium, uma vaga. Porém é preciso saber o momento de deixar o relógio em casa, desligar o zwift, esquecer a NP, TSS, IF, TSB, HR e simplesmente curtir a delícia que é treinar pelo simples fato de lhe fazer mais feliz !

Thelma D’Amélio