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Homens, mulheres e a diferença de comportamento no esporte

Já falamos em outros momentos sobre as diferenças fisiológicas entre os sexos. Nesta matéria falaremos sobre as diferenças comportamentais da mulher em relação ao treinamento físico no esporte competitivo.

Devido a anos de desigualdades sociais e culturais entre os gêneros, o papel da mulher no esporte também ainda é muito diferente em relação aos homens. Historicamente homens foram educados a lutar, guerrear, ser forte, não falar de suas emoções, competir pelo seu espaço e sua posição. Já a mulher, por muito tempo, foi educada a ser mais delicada, submissa, emotiva. Esse histórico social certamente influencia o comportamento das mulheres em relação ao esporte, especialmente o competitivo.

Felizmente, assim como em outras áreas, a mulher hoje vem buscando seu espaço também no meio esportivo. É crescente o número de adeptas de modalidades como corrida de rua e triatlhlon, por exemplo (a última meia maratona w21 Asics em São Paulo contou com mais de 2.300 mulheres corredoras!).

O rendimento esportivo das mulheres não está definido apenas pelas diferenças biológicas, mas também pelas diferenças psicológicas, sociais e culturais.

A mulher praticante de esportes competitivos apresenta características peculiares como agressividade, orientação para o êxito e perseverança, atributos genuinamente masculinos. Por outro lado, o treinador físico de mulheres não pode esquecer que ela é mais sensível e instável, podendo apresentar alterações de humor, disposição e rendimento devido às mudanças hormonais.

Estudos demonstraram, porém, que a atividade competitiva para elas é muitas vezes um fator estressante e gerador de ansiedade, ao contrário dos homens, para quem o esporte é justamente um fator de diminuição do stress e ansiedade. (Everly, 1989).

Segundo estudos de Jnes e Cale (1989), a intensidade da ansiedade cognitiva e somática foi maior em mulheres do que nos homens nos momentos pré- competição e o o nível de auto- confiança dos homens mostrou-se maior que das mulheres.

Muitas vezes essa carga maior de stress causado pelo esporte deve-se ao fato de a mulher ter que desempenhar múltiplas funções: ela é mãe, profissional, dona de casa e também esportista, e conciliar tudo muitas vezes pode gerar ansiedade. A mulher tende a se cobrar mais resultados no esporte, fruto de uma pressão interna e talvez da própria sociedade.

Para Pedersen (1996), os atletas do sexo masculino diferenciam-se das mulheres atletas por serem mais ativos, apresentarem índices mais altos de agressividade, serem mais competitivos e controlados. As mulheres atletas diferenciam-se por serem mais organizadas, disciplinadas e mais orientadas para um objetivo pré-determinado (mais perseverantes).

Para Luiz Navas, treinador da assessoria esportiva NAVASTRI , treinar mulheres é mais fácil: “Mulher costuma reclamar mais que homens, porém vai lá e faz, não tem mimimi. São mais organizadas , focadas e disciplinadas. O homem deixa muitas vezes de fazer o proposto, tem mais corpo mole. Mulheres em geral cumprem melhor as planilhas, apesar de muitas terem que conciliar filhos, marido, casa, trabalho, etc.”

O treinador continua: “Por outro lado, homens lidam melhor com frustração, por serem mais racionais. São mais previsíveis e estáveis. A mulher leva muito as coisas para o pessoal ,é mais instável e emotiva. È preciso todo um cuidado na forma de falar com elas para não sensibilizar”. Segundo ele, no entanto, em geral a tolerância ao esforço e à dor é maior nas mulheres, pois fisiologicamente elas foram preparadas para parir. “Interessante que elas são sensíveis porém mais tolerantes à dor ao mesmo tempo”. Pela experiência Navas acredita que mulheres tendem a se adaptar melhor a provas longas , “por serem mais pacientes e disciplinadas, além de terem menos força e explosão que os homens”.

Para elaborar as planilhas, no entanto, o treinador procura conversar semanalmente com as atletas, visando identificar possíveis variações de disposição ou humor, principalmente devido ao ciclo hormonal individual, que pode interferir no desempenho. Muitas vezes os treinos precisam ser ajustados, pois algumas mulheres podem apresentar queda no rendimento ou melhora substancial de acordo com a fase do ciclo. Os volumes e intensidades, no entanto, são os mesmo para os gêneros, uma vez que as distancias de provas são iguais.

Entrevistamos a Psicóloga do esporte Carla de Pierro, acerca das diferenças comportamentais entre homens e mulheres no esporte. Confira:

1) Quais as principais características comportamentais que diferem entre homens e mulheres em relação ao treinamento esportivo?

Homens e mulheres são diferentes biologicamente e psicologicamente, cada atleta tem sua singularidade mas geralmente os homens seguem uma linearidade de padrão do humor, motivação, nos objetivos e no comportamento nos treinos enquanto mulher tem sua inconstância de humor devido ao padrão hormonal cíclico, o que merece as adaptações necessárias para a necessidade de cada mulher e de cada momento.

2) Como as diferenças hormonais influenciam o comportamento e treinamento de homens e mulheres?

O homem é mais linear e constante do ponto de vista psicológico e por conta um padrão biológico, salvo se está diante de uma situação de stress ou crise, quando pode ter seu funcionamento alterado. Já as mulheres tem um padrão cíclico, próprio dos hormônios femininos, temos dias bons e dias ruins, de motivação e falta de motivação de muita energia e pouca energia. Tirando qualquer causa física de excesso de treino, desequilíbrio hormonal ou stress demasiado, esta variação é completamente normal e as mulheres deveriam se adaptar a estas condições tirando o melhor de cada momento e de cada variação do humor, inclusive porque sabemos que após o treino geralmente estamos muito mais dispostas. Hoje em dia já sabemos que os efeitos biológicos da TPM existem mas que dependendo de cada mulher pode ser potencializado por variáveis emocionais e comportamentais ou neutralizadas pelas mesmas, inclusive a atividade física pode ser uma grande aliada nisso.

3) Quais os cuidados o treinador deve ter no trato diário com atletas mulheres?

Levar em consideração que a mulher é cíclica, ele pode estar esperando algo dela que naquele dia que ela não consiga corresponder, ou seja, ele precisa ser flexível e capaz de adaptar treinos de acordo com as mudanças. As mulheres geralmente demandam e trocam muito afeto na relação com o treinador de diversas formas, algumas demandam muita atenção, outras querem feedback o tempo todo, querem ajuda, a opinião do treinador para tudo e principalmente sua aprovação e elogio. Nós mulheres gostamos de atenção e cuidado e o treinador acaba ocupando essa função na vida de muitas atletas.

Sabendo disso o treinador precisa entender o funcionamento e necessidade de cada atleta e adaptar o aproach pra cada uma, pra algumas será importante dar mais limites do que pra outras, algumas precisam de maior atenção e outras de mais informação. É importante ressaltar que o treinador precisa delimitar até onde vai seu papel como profissional, dar atenção e adaptar treinos é diferente de ser psicólogo, babá, amigo ou namorado. por isso vale manter a postura profissional sempre!

4) Em relação às características comportamentais e hormonais, mulheres têm mais facilidade de adaptação à provas curtas ou longas de triatlhon? Por que?

Não tenho a mão dados científicos que comprovem isso, mas o que sabemos é que nós mulheres temos biologicamente nosso corpo preparado para suportar a dor, já que precisamos parir. Isso pode ser uma das facilidades para as mulheres em provas de longa duração, saber suportar e portanto gerenciar melhor a dor.

5) Em relação à competitividade, quem é mais competitivo, homem ou mulher?

Temos a tendência de achar que homens são mais competitivos por conta do mundo masculino e tal, mas o que vejo na pratica trabalhando com mulheres em esportes de alta performance é que as mulheres são muito mais competitivas, até dificultando o trabalho em equipe e o apoio e aprendizado entre elas. Os homens apesar de competitivos parecem ter maior facilidade em desenvolver o espirito de equipe, enquanto as mulheres em geral são mais individualistas.

Thelma D’Amelio
Pós-graduada em Treinamento esportivo
Pós-graduanda em Fisiologia do Exercício

Luiz Navas
Coach Navas tri
Pós-graduado em Treinamento Esportivo
Certificado Ironman University

Colaboração:
Carla Di Pierro Psicóloga do esporte